terça-feira, 25 de outubro de 2016

Carta ao Impostor

No vigésimo e último dia da estadia de Brennan Manning, nas Rochosas do Colorado, ele escreveu esta carta:

"Bom dia, impostor. Certamente você se surpreende com o cumprimento cordial. Talvez esperasse um "olá, seu tonto", uma vez que lhe dei marteladas desde o primeiro dia deste retiro.

Deixe-me começar admitindo que tenho sido irracional, ingrato e desequilibrado ao avaliá-lo. (É claro que, você sabe que ao me dirigir a você, converso comigo. Você não é algo isolado, uma
entidade despersonalizada vivendo num asteroide, mas uma parte real de mim.)

Hoje, venho a você não com uma vara na mão, mas com um ramo de oliveira. Quando era pequenino e pela primeira vez percebi que ninguém me protegia, você interveio e mostrou onde me esconder. (Na Depressão dos anos 30, você se lembra, meus pais estavam fazendo o que podiam com o que tinham apenas para providenciar comida e abrigo.)

Naquele momento, você foi inestimável. Sem sua intervenção teria sido sobrepujado pelo terror e paralisado pelo medo. Você me defendeu e desempenhou um papel crucial e protetor em meu desenvolvimento. Obrigado.

Aos quatro anos, você me ensinou a construir uma cabana. Eu rastejava, disfarçadamente, da cabeceira até os pés da cama e puxava o lençol, a coberta e o travesseiro para cima de mim — acreditando que ninguém me encontraria. Eu me sentia seguro. Ainda me impressiono como funcionava bem. Minha mente tinha pensamentos felizes, espontaneamente sorria e começava a rir escondido. Construímos, juntos, aquela cabana porque o mundo em que habitávamos não era um lugar amistoso. No processo de construção, porém, você me ensinou a esconder de todos o eu verdadeiro e iniciou um processo vitalício de encobrimento, refreamento e retraimento. Seus recursos me capacitaram a sobreviver, mas, então, seu lado malévolo apareceu e você começou a mentir para mim. "Brennan", você sussurrava, "se insistir nessa bobagem de ser você mesmo, seus poucos e pacientes amigos vão dar no pé, deixando-o completamente sozinho. Guarde seus sentimentos, apague suas memórias, retenha suas opiniões e desenvolva habilidades sociais que lhe permitam encaixar-se em qualquer situação".

Dessa forma, começou o elaborado jogo de fingimento e engano. Por ter funcionado, não levantei nenhuma objeção. Com 0 passar dos anos, você e eu marcamos pontos usando uma variedade de recursos. Estávamos inflados e concluímos que o jogo deveria continuar.
Entretanto, você precisou de alguém que lhe colocasse as rédeas, que o encabrestasse. Eu não tinha percepção nem coragem para domá-lo, assim você continuou a fazer uma barulheira como Sherman cruzando Atlanta, reunindo forças ao longo do caminho. Seu apetite por atenção e afirmação se tornou insaciável. Nunca o confrontei em relação à mentira porque eu mesmo estava enganado.
No final das contas, meu amigo mimado, você é pobre e egoísta. Precisa de carinho, amor e um lugar seguro para habitar.

Neste último dia nas Rochosas, meu presente é levá-lo aonde, sem o saber, você tem ansiado estar: na presença de Jesus. Seus dias de causador de tumulto são passado. A partir de agora, diminua o ritmo, diminua bastante o ritmo. Na presença de Deus, percebo que você já começa a diminuir. Quer saber de uma coisa, rapazinho? Você é muito mais atraente desse jeito. Estou apelidando-o de "Pequerrucho". Naturalmente, você não vai, de repente, rodopiar e morrer. Sei que às vezes ficará enfadado e começará a encenar, mas, quanto mais tempo passar na presença de Jesus, mais acostumado ficará com a face dele e precisará de menos adulação, porque terá descoberto, por si mesmo, que ele é Suficiente. Em sua presença, você se deliciará com a descoberta do que significa viver pela graça, e não pelo desempenho.

Seu amigo,
Brennan

(Retirado do Livro "O Impostor Que Vive Em Mim", do autor Brennan Manning)

A Graça e a Paz do Senhor Jesus.