sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Impostor

Como James Masterson escreveu em The search for the real self: "O falso eu desempenha seu papel ilusório, protegendo-nos ostensivamente —, mas o faz de um jeito programado para manter nosso medo de sermos abandonados, de perdermos o apoio, tornando-nos incapazes de enfrentar as coisas por nós mesmos, sendo incapazes de ficar sozinhos".

O impostor vive com medo!

Os impostores se preocupam com a aceitação e a aprovação. Por causa da sufocante necessidade de agradar outros, não conseguem dizer não com a mesma confiança que dizem sim. Por isso fazem das pessoas, dos projetos e das causas uma extensão de si mesmos, motivados não pelo comprometimento pessoal, mas pelo medo de não atingir as expectativas dos outros.

O falso eu nasce na infância, quando não somos amados, quando somos rejeitados ou abandonados. John Bradshaw define a co-dependência como uma doença "caracterizada pela perda da identidade. Ser co-dependente é estar destituído do contato com os próprios sentimentos, as necessidades e os desejos".

O impostor é o co-dependente clássico. Para alcançar aceitação e aprovação, o falso eu suprime, ou camufla, sentimentos, impossibilitando a honestidade emocional. Viver a partir do falso eu gera um desejo compulsivo de apresentar uma imagem perfeita para o público, de forma que todos nos admirem e ninguém nos conheça. A vida do impostor se transforma numa montanha russa de exultação e depressão.

O falso eu se vale de experiências externas para construir uma fonte pessoal de significado. A busca por dinheiro, poder, glamour, proezas sexuais, reconhecimento e status realça o mérito pessoal e cria a ilusão de sucesso. O impostor é o que ele faz.

O impostor nos predispõe a valorizar o que não tem importância, revestindo com falso brilho o que é minimamente substancial e nos desviando do que é real. O falso eu nos faz viver num mundo de ilusões. O impostor é um mentiroso.

Nosso falso eu, cega obstinadamente cada um de nós para a luz e a verdade do próprio vazio. Não conseguimos reconhecer a escuridão interior. Ao contrário, o impostor proclama a escuridão como a luz mais intensa, envernizando a verdade e distorcendo a realidade. Isso me traz à mente as palavras do apóstolo João: "Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós" (1Jo 1:8; NVI)

Suplicando a aprovação negada na infância, o falso eu vacila, a cada dia, com a instabilidade de um apetite insaciável por afirmação. Com minha fachada de papelão intacta, entro numa sala lotada, precedido por uma trombeta com surdina: "Aqui estou eu", enquanto o eu verdadeiro, escondido com Cristo em Deus, exclama: "Ah, aí está você!". O impostor assemelha-se, evidentemente, ao efeito que o álcool representa para o alcoólatra. Ele é sagaz, desconcertante e poderoso. Ele é traiçoeiro.

O impostor está atento ao tamanho, à forma e à cor das ataduras que encobrem minha insignificância. O falso eu me convence a ficar preocupado com  o peso. Se me entupo com um pote de sorvete e a balança sinaliza a aflição na manhã seguinte, fico abatido. Um lindo dia de sol me acena, mas para o impostor, ensimesmado, a beleza está longe da rosa. Acho que Jesus sorri com estas vaidades menores (ver como estou na vitrine de uma loja enquanto finjo estar olhando para as mercadorias), mas elas forçam minha atenção para fora do Deus que habita em mim, e temporariamente me tiram a alegria do Espírito Santo. O falso eu, porém, racionaliza a preocupação com minha cintura e com a aparência geral, e sussurra: "Uma imagem gorda e desalinhada diminuirá a credibilidade de seu ministério". Sagaz.

Suspeito não estar sozinho nisso. A obsessão narcisista com o peso na América do Norte é uma estratégia formidável do impostor. Apesar do válido e importante fator saúde, a quantidade de energia e tempo devotados para adquirir e manter uma figura esbelta é desconcertante. Nenhum aperitivo é imprevisto, nenhuma mordiscada é espontânea, nenhuma caloria deixa de ser anotada, e nenhum morango passa sem que se preste contas. Cria-se a orientação profissional, livros e revistas são esquadrinhados, spas para o cuidado com a saúde são subsidiados e os méritos da dieta de proteínas são debatidos em cadeia nacional de televisão.

O que é o êxtase espiritual comparado com o requintado prazer de parecer com um modelo? Parafraseando o cardeal Wolsey: "Ah, se tivesse servido a Deus da mesma forma como cuidei da minha cintura!"

O impostor exige ser notado. O anseio que tem por elogios fortalece sua busca fútil pela satisfação carnal. Suas ataduras são sua identidade. A aparência é tudo. Ele faz malabarismos com esse quam videri (ser em vez de parecer ser), de forma que a "aparência de ser" se torne seu modus operandi.

"Cada um de nós está obscurecido por uma pessoa ilusória: o falso eu", observou Thomas Merton. Ele prosseguiu explicando: "Esse é o homem que eu mesmo quero ser, mas que não pode existir, porque Deus não sabe nada a seu respeito. Ser desconhecido de Deus é definitivamente privacidade demais. O falso e privativo eu é o que quer existir fora do alcance da vontade e do amor de Deus — além da realidade e da vida. Esse eu não passa de uma ilusão. Não somos muito bons em reconhecer ilusões, muito menos as que nos são mais queridas — aquelas com as quais nascemos e que nutrem as raízes do pecado. Para a maior parte das pessoas no mundo, não há nenhuma realidade subjetiva maior do que o falso eu que possuem, e vida de pecado".

A triste ironia é que o impostor não consegue experimentar intimidade em nenhum relacionamento. Seu narcisismo exclui os outros. Incapaz de ter intimidade consigo, além do alcance de seus sentimentos, intuições e percepções, o impostor é insensível ao humor, às necessidades e aos sonhos de outros. O compartilhamento recíproco é impossível. O impostor construiu a vida em torno das conquistas, do sucesso, do ativismo e de atividades autocentradas que trazem gratificação e elogio dos outros.

James Masterson, afirmou: "E da natureza do falso eu nos impedir de saber a verdade acerca de nós mesmos, de penetrar nas causas profundas de nossa infelicidade, de nos ver como realmente somos — vulneráveis, amedrontados, aterrorizados e incapazes de deixar que o eu verdadeiro venha à tona".

Por que o impostor se ajeita na vida de modo tão medíocre? Primeiro porque as memórias reprimidas da infância, que assentam o padrão de autoengano, são dolorosas demais para ser lembradas e, assim, permanecem cuidadosamente encobertas. Vozes tênues do passado agitam sentimentos vagos de correção irritada e abandono implícito.

O resumo de Masterson é apropriado: "O falso eu possui um radar defensivo altamente desenvolvido,
cujo propósito é evitar sentimentos de rejeição, embora sacrifique a necessidade de intimidade. O sistema é construído durante os primeiros anos de vida, quando é importante detectar o que pode causar a desaprovação materna".

A segunda razão pela qual o impostor se arruma com pouco na vida é a simples e velha covardia. Sendo pequeno, poderia justificadamente admitir uma culpa menor para evitar um castigo menor, afirmando que era impotente e indefeso. Mas, no outono da minha vida, fortalecido com tanto amor e afeição, e temperado com juramento eterno, devo dolorosamente reconhecer que ainda opero centralizado no medo.

Merton disse que uma vida devotada à sombra é uma vida de pecado. Tenho pecado em minha recusa covarde — por causa do medo da rejeição — de pensar, sentir, agir, reagir e viver o eu autêntico. Obviamente, o impostor "refuta, de maneira implacável, que a raiz do problema não é tão grave e deveria ser ignorada, que homens e mulheres 'maduros' não ficariam tão irritados por causa de algo tão trivial, que o equilíbrio deve ser mantido ainda que isso signifique colocar limites irracionais nas esperanças e nos sonhos pessoais, aceitando a vida em sua forma mediocrizada"

Nós nos recusamos a ser o eu verdadeiro até mesmo com Deus — e, então, nos perguntamos por que nos falta intimidade com ele. O desejo mais profundo de nosso coração é ter a união com Deus. Desde o primeiro momento de nossa existência, o anseio mais forte é cumprir o propósito original de nossa vida: "vê-lo mais claramente, amá-lo mais carinhosamente, segui-lo mais de perto". Somos criados para o Senhor, e nada menos nos satisfará de verdade.

C. S. Lewis pôde dizer que foi "surpreendido pela alegria", tomado por um desejo que fez "tudo o mais que já aconteceu... insignificante, se comparado". Nosso coração sempre estará inquieto até que descanse nele. Jeffrey D. Imhach, em The recovery of love, escreveu: "A oração é essencialmente a expressão do coração ansiando por amor. Não é tanto a lista de nossos pedidos, mas o respirar de nossos pedidos mais profundos, o estar unidos com Deus da forma mais completa possível".

Você já se sentiu frustrado na oração por uma resistência interna? Pelo terror existencial do silêncio, da solitude e por estar sozinho com Deus? Pela forma como você se arrasta para fora da cama no louvor matinal, movendo-se pesadamente para adorar com o torpor sacramental do doente terminal, suportar a oração de toda noite com resignação estóica, sabendo que "isso também passará"?
Cuidado com o impostor!
O falso eu é especializado em disfarces traiçoeiros. E a parte preguiçosa do eu, resistindo ao esforço, ao ascetismo e à disciplina que a intimidade com Deus requer. Ele inspira racionalizações como: "Meu trabalho é minha oração; estou muito ocupado; a oração deve ser espontânea, por isso só oro quando sou movido pelo Espírito". As desculpas esfarrapadas do falso eu, nos permitem manter o status quo.
O impostor tem pavor de ficar sozinho, sabe "que, se ficar quieto interna e externamente, descobrirá por si mesmo que não é nada. Será deixado sem nada, além da própria insignificância, e para o falso eu, que afirma ser tudo, tal descoberta seria a ruína.

Obviamente, o impostor se impacienta com a oração. Tem fome de coisas excitantes, suplica por experiências que alterem o humor. Fica deprimido quando é privado dos holofotes. O falso eu se frustra porque nunca ouve a voz de Deus. Não consegue, uma vez que Deus não vê ninguém ali. A oração é a morte de toda identidade que não procede de Deus. O falso eu foge do silêncio e da solicitude porque o lembram da morte.

Reconhecer com humildade que habito freqüentemente num mundo irreal, que banalizei meu relacionamento com Deus e que sou levado por vãs ambições, tudo isso é o primeiro golpe para desmantelar minha imagem cintilante. A honestidade e a disposição de tirar o encanto do falso eu dinamitam o alçapão do auto-engano.

A paz reside na aceitação da verdade. Qualquer faceta do eu obscurecido que nos recusamos a acolher torna-se o inimigo e nos força a atitudes defensivas.

À medida que encaramos nosso egoísmo e nossa estupidez, nos tornamos companheiros do impostor, aceitamos estar quebrados, empobrecidos e percebemos que, se não estivéssemos, seríamos Deus. A arte de ser gentis conosco nos leva a ser gentis com os outros, e é um pré-requisito natural para nossa presença com Deus em oração.

Detestar o impostor é, na verdade, detestar a si mesmo. O impostor e o eu constituem uma pessoa. O desrespeito ao impostor dá vazão à hostilidade, que se manifesta numa irritabilidade generalizada — uma irritação com as falhas nos outros que odiamos em nós mesmos. O ódio autodirigido sempre resulta nalguma forma de comportamento autodestrutivo.

Aceitar a realidade de nossa pecaminosidade significa aceitar o eu autêntico. Judas não conseguiu encarar sua sombra; Pedro conseguiu. Este amparou o impostor dentro de si; aquele enfureceu-se contra o impostor. "O suicídio não acontece num impulso repentino. É um ato que foi ensaiado durante anos por um comportamento punitivo de padrões inconscientes".

Quando aceitamos a verdade do que realmente somos e a submetemos a Cristo, a paz nos envolve, quer a sintamos ou não. Com isso quero dizer que a paz que excede todo o entendimento não é uma sensação subjetiva de paz; se estivermos em Cristo, estaremos em paz, mesmo quando não sintamos paz alguma.

Com benevolência e compreensão da fraqueza humana, que somente Deus consegue mostrar, Jesus nos liberta da alienação e da autocondenação, e oferece a cada um de nós uma nova possibilidade. Ele é o Salvador que nos defende de nós mesmos. Sua Palavra é liberdade.

Jesus desvenda os verdadeiros sentimentos de Deus a nosso respeito. À medida que viramos as páginas dos evangelhos, descobrimos que as pessoas que Jesus encontra ali são você e eu. A compreensão e a compaixão que oferece a elas, também as oferece a você e a mim.

(Retirado do livro "O impostor que vive em mim" de Brennan Manning - 2° Capítulo)

Para ler o resumo do 1° Capítulo, clique AQUI


A Graça e a Paz do Senhor Jesus.